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MÚSICA YURI, DE FLÁVIO FARIA E VICENTE SÁ

2.7.08

POR QUE VIAJAR?

Quando eu era adolescente, vi uma fotografia de Mário de Andrade sobre os trilhos da estrada de ferro Madeira-Mamoré - também conhecida como a “Ferrovia do Diabo”. Sua presença foi registrada durante a construção da obra, em plena selva amazônica, no início do século XX. Um empreendimento histórico que ceifou a vida de 6 mil trabalhadores, vitimados por ataques de índios, afogamentos, picadas de cobra e doenças diversas, como malária, febre amarela, beribéri e tuberculose.

Achei curioso aquele fato. Por que um escritor da Paulicéia estaria tão longe de casa, em local tão ermo? Quantos dias ou semanas teria ele gastado para chegar ali? Por qual razão?

Naquela época, eu mal sabia que Mário de Andrade não era uma pessoa comum. Seus livros e estórias nasciam do contato profundo com o Brasil Escondido. Ele havia decidido mergulhar nas entranhas de seu país e de seu povo. Sua arte dependia disso! Estar ali, no meio do nada, era uma ginástica aparentemente corriqueira para ele. Depois soube que foi por aquelas paragens amazônicas que encontrou inspiração e conteúdo para sua maior obra: Macunaíma.

À medida que fui crescendo, ganhando maturidade e me apaixonando cada vez mais por literatura, passei a perceber que os chamados escritores de primeira grandeza possuíam, via de regra, essa característica. Escreviam sobre locais, pessoas e sentimentos que conheciam de perto. Não apenas dominavam as letras, mas sabiam se colocar como atores e aprendizes de uma realidade social que poucos imaginavam existir. Essa característica não pertencia apenas a Mário de Andrade, mas a muitos outros escritores que marcaram nossos tempos: Gabriel Garcia Márquez, Neruda, Sábatto, Borges, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, dentre outros. Talvez fosse o exercício de se embrenhar pelas terras esquecidas e pela história de seus países o grande diferencial que os transformou em homens inesquecíveis para a humanidade. Sabiam bem do que falavam. As emoções e os cenários de suas estórias estavam gravados (também) em suas próprias peles.

Os grandes homens e poetas são, em sua imensa maioria, eternos viajantes. Não viajantes comuns, mas exploradores. Uma verdadeira viagem tem que ter essa conotação: explorar, superar limites, desejar o novo. Buda, Cristo, Francisco de Assis, Gandhi e Paulo de Tarso eram viajantes solitários, exploradores de almas, e gastaram muita sola de calçado na caminhada da iluminação.

VIAJAR, sob todos esses aspectos, tornou-se essencial para mim, para minha própria formação intelectual e espiritual. Foi o meio que utilizei para amadurecer e fortalecer meu espírito e para experimentar um tipo de felicidade que ainda não conhecia. De falar com propriedade das coisas que vi, que senti e que presenciei. Creio que o verdadeiro encontro interior para alguns, como eu, precisa passar pela experiência do ir para longe e do voltar feliz para casa. Do desvendar o que existe além da montanha e do rio. Do experimentar diferentes sons, odores e temperaturas. Do contemplar o sol, a chuva ou as estrelas. Do conhecer pessoas simples e do aprender com elas.

Eu, após viajar muito de ônibus, de avião e automóvel, só consegui experimentar um contato profundo comigo mesmo depois que passei a viajar de motocicleta. Sabe-se lá o porquê, mas sempre tentei me justificar acreditando que pilotar uma moto por longos períodos de tempo gera um estado mental diferenciado. O corpo, em contato direto com o ambiente, parece estar sob as carícias da natureza. A mente relaxa, mas os reflexos ficam acesos e prontos para dar comandos rápidos aos membros. Em outra oportunidade cheguei a comparar esse estado psíquico ao que os antigos monges taoístas chamavam de “encontrar o silêncio no meio da tempestade”. É uma espécie de inebriamento que só acontece quando nos deslocamos em velocidade moderada. Quando se acelera com exagero as emoções são diferentes, decorrem da adrenalina, mas não se atinge essa condição espiritual.

Contudo, não advogo a tese de que a motocicleta é o melhor veículo para todos. Trata-se de uma constatação pessoal. Sei de outros viajantes que vivenciaram emoções idênticas dentro de um jipe, de um veleiro, sobre uma bicicleta ou simplesmente caminhando ou mochilando pelas estradas do mundo.

Quem viaja está sempre construindo algo diferente para suas vidas. Está abrindo seu coração para novos sentimentos e amizades. Está descerrando a mente para novos conhecimentos, os olhos para novos cenários e horizontes. Enfim, compartilhando sua alma com o planeta que o acolhe.

6.4.08

MEUS PRINCIPAIS PARCEIROS DE ESTRADA

Paulo Roberto Amaral - Alguns parceiros se destacaram na execução dos nossos projetos de viagem. Não há como negar que meu amigo Paulo Amaral tem sido o mais assíduo de todos. Somos amigos desde 1992, época em que trabalhamos lado a lado no Banco do Brasil por seis anos consecutivos, em Brasília. Em 1998 passamos em concurso para o serviço público. Eu para o Ministério do Planejamento e ele para a Procuradoria-Geral da República. Ficamos alguns anos sem nos ver e nos reencontramos em um dos encontros de moto clubes do Terraço Shopping, em 2005. Na época eu estava procurando parceiro para fazer uma viagem pelo litoral nordestino, com retorno pelo Sertão. Paulo topou de imediato me fazer companhia. Apenas após esta experiência foi que ele resolveu ingressar no nosso moto clube. Em fevereiro de 2007, fomos conhecer os Lençóis Maranhenses e outros estados nordestinos por onde não havíamos passado nessa primeira viagem. Depois vieram outros projetos, os mais longos foram o do Deserto do Atacama, em 2007, quando trilhamos exatos 8506 km lado a lado; e da Expedição ao Aconcágua e ao Deserto do Atacama, em 2009, com mais de 8 mil km. No total, fomos parceiros por mais de 33.000 km de estradão.


Paulo Roberto Amaral


Gilson Wander (Wandeco), um dos melhores amigos que tenho atualmente, é outro parceiro que tem marcado presença constante e já temos 26.000 km rodados lado a lado. Fizemos juntos o Caminho dos Diamantes (Estrada Real), o Estado da Flórida (EUA) e meu maior projeto até o momento, a segunda viagem a Ushuaia, a Cidade do Fim do Mundoem 2012. Isso sem computar os muitos encontros de motocicleta que participamos, como os de Serra Negra/SP, Patos de Minas/MG, Prado/BA, Morrinhos/GO e outros tantos.


Eu e Gilson Wander, na Serra do Cipó/MG

Rosane, minha esposa, fica em segundo lugar em quilometragem rodada (27.000 km na garupa). Estivemos juntos na minha primeira viagem a Ushuaia (a Cidade do Fim do Mundo, na Terra do Fogo argentina), na região do Monte Aconcágua (Argentina), em Santiago, no Deserto do Atacama (Chile) e em 6 países da Europa, além muitos outros locais do Brasil, como os Lençóis Maranhenses e a Região dos Lagos do Rio de Janeiro.


Rosane


Zael também esteve conosco em Ushuaia (2009), ao lado de sua esposa Cássia, e em muitos outros lugares do Brasil. Zael rodou junto comigo cerca de 11.000 km.

Zael e Cássia


Dino - foi meu parceiro na primeira viagem a Ushuaia e foi, entre os demais, o que mais rodou ao meu lado: exatos 10.414 km naquela ocasião.
Dino

Gláucio e Aline fazem uma parceria fantástica, sempre presentes em nossos encontros e viagens com o moto clube. Ambos participaram conosco da primeira viagem a Ushuaia e a muitos outros locais. Rodamos algo em torno de 11.000 km lado a lado.


Gláucio e Aline

Carlos Coury, colega de trabalho que me influenciou decisivamente a voltar ao mundo das motos, realizou 3 viagens comigo: uma delas pela Estrada Real, em 2006. Um amigo fantástico que abandonou de vez as viagens em 2 rodas.


Eu e Coury


Alex Cardoso foi meu parceiro aguerrido na viagem ao Peru e Bolívia em 2010, onde viajamos cerca de 6 mil km lado a lado, com mais de mil km "fora-de-estrada" (off road).




COMO TUDO COMEÇOU

Comecei a pilotar, de fato, em 1983, por influência do amigo Tony Brixi, do Banco do Brasil, em Brasília, que possuia uma Yamaha RX180. Minha primeira moto foi uma Honda Turuna, ano 1980, adquirida com pouquíssimo uso. Minhas viagens naquela época se resumiam a algumas cidades próximas, como Luziânia, Pirenópolis e Goiânia, que ficavam, no máximo, a 200 km de Brasília. Naqueles tempos isso já era um absurdo! "Você foi a Goiânia de moto??? Você é louco???". Conviver com observações deste tipo era compreensível, porque não existia ainda uma cultura estradeira no meio motociclístico naqueles anos. Para se ter uma idéia, a Turuna (de 125 cc) era considerada uma "moto potente" nos anos 80.
Alguns dos meus amigos motociclistas partiram para as trilhas de terra e eu fui junto. Comprei uma Honda XL250 vermelha, ano 1983, e começei a brincar de andar nas estradas não-pavimentadas que, diga-se de passagem, eram muitas. O Distrito Federal ainda passava por uma fase de urbanização da periferia e não nos faltavam opções off road.
Em 1990 comprei a primeira Sahara 350 que apareceu no mercado em Brasília. Uma moto fantástica para aquela época. Viajei pouco com ela, porque nesse período meus dois filhos eram muito pequenos e o carro era usado constantemente.
Em 1992 separei-me da minha primeira esposa, Luciana, e no segundo semestre de 1993 tive que vender a moto por não ter onde guardá-la com segurança. Estava morando numa quitinete em uma rua comercial onde não existia qualquer tipo de garagem.
De agosto de 1993 até o final de 2005 virei um "coxinha" profissional. Só andava de motocicleta vez por outra, quando algum amigo me emprestava a sua para algum rolé esporádico. Nesse longo período de mais de dez anos sempre me dava vontade de comprar outra moto, mas cadê os amigos motociclistas? Para onde foram meus parceiros das trilhas do passado? A maioria tinha sumido e os que não sumiram estavam barrigudos, cuidando dos filhos e das dores nas costas.
Por volta de 2004 e nos anos seguintes, Brasília se tornou o paraíso dos motoclubes. Havia encontros semanais que reuniam mais de 1000 motocicletas simultaneamente. Eu ia para lá e ficava invejando aquela galera fantasiada com casacos e botas de couro, bandanas encaveiradas, capacetes personalizados etc. Em 2005, passei por algumas dificuldades emocionais e, em uma das minha avaliações íntimas, conclui que minha vida tinha virado uma porcaria desde o dia que vendi minha Sahara. Já havia se passado mais de uma década e as coisas não podiam continuar daquele jeito. Quem um dia subiu numa motocicleta e pegou a estrada sabe que cedo ou tarde voltará para ela. Ou melhor, ela voltará para nós. Uma parceria difícil de ser rompida.
Bom, assim fui indo. Coincidentemente, no final de 2005, quando estava a serviço do Ministério da Cultura na área de Planejamento, trabalhei ao lado de um amigo, Carlos Coury, que tinha uma Tornado 250. Ele me deu total apoio para voltar a pilotar. Comprei uma Falcon 2004 e, logo em seguida, uma Shadow 600, ano 2002. Viajamos juntos pela Estrada Real, por Goiás Velho e Corumbá. Mergulhei de cabeça na vida estradeira. Minha atual esposa, Rosane, que até 2005 nunca tinha subido na garupa de uma moto, adorou a experiência de compartilhar a estrada comigo.
Nunca tive relação muito fiel ao veículo. Gosto de trocar de motos com frequência, experimentando as diferentes emoções que cada uma pode dar. Confesso que não existe nada que se compare a uma bigtrail, que julgo ser a moto ideal para as estradas brasileiras. Nessas idas e vindas, cheguei a possuir 9 motos diferentes desde 2006. Estacionei por cerca de 4 anos na VStrom DL1000, a relação mais longa que tive com uma máquina. Agora estou pilotando uma Triumph Tiger 1200 Explorer, adquirida em dezembro de 2013.

5.4.08

MEU INGRESSO NO MOTOCLUBE ÁGUIA SOLITÁRIA

Numa noite de abril de 2006, durante um daqueles encontros semanais de motoclubes, que aconteciam no Terraço Shopping do Setor Sudoeste, em Brasília, o vice-presidente do Águia Solitária, Carlos Brasil (que também é músico e compositor de primeira linha), me convidou para participar na agremiação. Na verdade, quem teve a iniciativa do convite foi a esposa dele: a cantora Silvana Mafra, que me conhecia do meio musical da cidade. Ao entrar no grupo, uma nova vida começou para mim. Os parceiros, antes raros, se tornaram cotidianos. Muitas viagens começaram a surgir. Mesmo antes de ser escudado pelo motoclube, já tinha acompanhado Paulo Guilherme (presidente dos águias naquela época) em uma viagem a Pirapora/MG. Meu irmão Sérgio foi conosco naquela ocasião.
É curioso como as amizades nesse meio são fáceis de construir. Em menos de 2 meses no motoclube, já conhecia cerca de 100 motociclistas de outras agremiações. As noites de terça-feira, quando aconteciam os encontros dos motoclubes, passaram a ser especiais para mim. Um novo universo de amigos e de parceiros vibrantes surgiu repentinamente e passou a fazer parte da minha vida.